Resultados



Este é um inquérito que teve como objectivo obter um retrato da situação actual do sector das artes visuais, realizado entre o dia 12 de Maio e 5 de Junho.


Para além de demonstrar o enorme impacto que o período de confinamento teve no setor das artes visuais, este inquérito vem também dar a conhecer de uma forma mais concreta o quão diverso é o setor do ponto de vista económico. Salientamos aqui dois pontos, cerca de metade dos inquiridxs revela que vivia, previamente a esta pandemia, com valores mensais inferiores ou próximos ao salário mínimo nacional, e que, no caso dxs artistas plásticxs, apenas uma ínfima parte tem uma relação estável com o mercado. A grande maioria sobrevive à margem das galerias comerciais constituindo assim um panorama muito mais diversificado, orgânico e complexo do que as descrições que geralmente se fazem do mundo da arte em Portugal



Consequências da pandemia

No que diz respeito à situação actual, 73% dxs inquiridxs afirma ter tido uma perda parcial ou total de rendimentos durante o confinamento. Este número corresponde ao dobro da média nacional,  36% segundo o estudo da universidade católica citado pelo Público a 11 de Abril.(1)

Dxs inquiridxs com perda de rendimentos, 25% responde estar  dependente de solidariedade para  pagar as suas despesas e 5% responde que não tem forma de as pagar. 32% dizem estar a ter dificuldade em pagar a renda de casa e as despesas fixas (água, luz etc). Em seguida, 21% afirma-se com problemas para pagar a alimentação.

Parecem-nos estes dados  particularmente reveladores  da precarização e desproteção social deste sector,  que sabemos não é de agora, mas que se mostra atualmente de forma inequívoca. 


Dxs inquiridxs que tiveram actividades canceladas pelo confinamento (298), 42% diz que essas actividades (exposições, projetos, eventos ou actividades) não foram pagas. A explicação mais provável para este dado é a de que as contratações neste sector são, na sua esmagadora maioria, feitas de forma oral/informal, ficando x trabalhadxr,  dependente da boa vontade e ética dx contratadxr.


Apoio extraordinário

Dxs inquiridxs que recebem o apoio extraordinário a trabalhadorxs independentes (21%), 26% revela que recebeu menos de 100€ por mês, 22% entre 100€ e 200€ e também 22% entre 200€ e 300€. 10,5% recebeu entre 300€ e 400€ e apenas 18,4% recebeu o valor máximo do apoio, 438€.  24% responde que apesar de ter tido perda de rendimentos não foi, até ao momento, elegível para o apoio. 91% dxs inquiridxs que receberam o apoio consideram que o valor recebido não lhes permite viver de forma digna. 


Rendimentos pré covid

Previamente a esta pandemia, o rendimento médio mensal  de 25% dos participantes era de até 500€ . 19% revela que recebeu entre 500€ e 700€ por mês 21% recebeu em média entre 700€ e 1000€ por mês, e outros 21% dos participantes entre 1000€ e 1500€. Os restantes declaram valores médios acima dos 1500€. 


O universo

O inquérito procurou abranger diferentes realidades de trabalhadores do sector das artes visuais,  sendo que 61% identificam-se como artistas visuais e 34% como profissionais de outras áreas do sector  (curadoria, mediação cultural, produção entre outras).

O número de respostas foi de 319, 73% veio de Lisboa, 11% do Porto e os restantes de diferentes localidades do país. A maioria, 56%, identificaram-se como mulheres.


54% são trabalhadores independentes, 12% estão em situação mista, 9% têm contrato sem termo e 6% contrato a termo. É de salientar que 6% responde que trabalha de forma informal, sem contrato nem recibo, e portanto actualmente sem acesso às prestações da segurança social.


A maioria dos participantes, 63%, tem duas ou mais actividades. Este é mais um sinal da precariedade do meio, que cruzando com os dados sobre a situação económica dxs inquiridxs, para uma parte considerável não chega sequer a garantir um rendimento equivalente ao salário mínimo. 


Sobre a proveniência dos rendimentos. Apenas 9% dxs inquiridxs nomeou a venda de obras de arte como a sua principal fonte de rendimento,  7,5% referiu bolsas ou apoios. A maior percentagem, 43%, tem como fonte de rendimento principal honorários de trabalho independente, 21% de trabalho dependente. Não temos dados concretos sobre a origem e os termos destas prestações de serviço e contratos de trabalho, mas sabemos que 38% dxs inquiridxs tem como actividade principal as artes visuais, portanto a maioria destes artistas têm rendimentos directos das artes visuais que não passam pelo mercado (supomos honorários de exposição e projectos).



  1. https://www.publico.pt/2020/04/11/sociedade/noticia/metade-teletrabalhadores-reduziu-produtividade-desde-comecou-crise-sanitaria-1911941




Universo

Forms response chart. Question title: Identifico-me como . Number of responses: 319 responses.





Forms response chart. Question title: O área de residência é...  . Number of responses: 319 responses.




Forms response chart. Question title: Idade. Number of responses: 319 responses.



Forms response chart. Question title: A  actividade da qual obtenho a maior parte do meu rendimento é de. Number of responses: 319 responses.


Forms response chart. Question title: Independentemente da actividade da qual obtenho a maior parte dos meus rendimentos, penso em mim como:. Number of responses: 319 responses.





Forms response chart. Question title: Qual a minha situação laboral antes do confinamento ?. Number of responses: 319 responses.


Trabalho Independente a Recibos Verdes

Forms response chart. Question title: No último ano (2019) fechaste actividade em algum momento?. Number of responses: 210 responses.


Forms response chart. Question title: Previamente ao ano de 2019, antes de vigorar a contribuição mínima actual, fechaste actividade nos períodos que não tiveste rendimentos? . Number of responses: 210 responses.




Situação económica e laboral pré confinamento / Covid 19


Forms response chart. Question title: Quantas actividades remuneradas diferentes tinhas antes do confinamento ?. Number of responses: 319 responses.


Forms response chart. Question title: Quantas dessas actividades exerces simultaneamente? Ou seja, de forma regular na mesma semana ou mês.. Number of responses: 319 responses.


Forms response chart. Question title: Além da tua actividade profissional, tinhas mais alguma outra fonte de rendimento regular? Como por exemplo apoio familiar, rendas, apoio do estado/segurança social?. Number of responses: 319 responses.


Forms response chart. Question title: Qual foi teu rendimento médio mensal em 2019?. Number of responses: 319 responses.


Forms response chart. Question title: No último ano qual foi a periodicidade com que tiveste rendimentos?. Number of responses: 319 responses.



Forms response chart. Question title: A minha principal fonte de rendimento no último ano (2019) foi resultado sobretudo de... . Number of responses: 319 responses.

Forms response chart. Question title: A minha segunda fonte de rendimento no último ano (2019) foi o resultado de.... Number of responses: 319 responses.


Cancelamentos ou adiamentos de projectos / eventos / actividades / exposições


Forms response chart. Question title: Quantos projectos, exposições, actividades ou outros eventos tiveste CANCELADOS ou ADIADOS devido à situação de pandemia Covid _19?. Number of responses: 298 responses.



Forms response chart. Question title: Caso tenhas tido CANCELAMENTO(S) de  projectos / eventos / actividades / exposições, o pagamento previsto foi feito ou irá ser em breve?    (selecciona uma ou mais opções, caso tenhas tido diferentes experiências ). Number of responses: 298 responses.

Forms response chart. Question title: Caso tenhas tido ADIAMENTO(S) de projecto / evento / actividade / exposição, o que aconteceu com o pagamento que estava previsto? (selecciona uma ou mais opções, caso tenhas tido diferentes experiências). Number of responses: 280 responses.
Situação económica actual


Forms response chart. Question title: A minha situação económica desde o inicio do confinamento. Number of responses: 319 responses.


Forms response chart. Question title: Neste momento para pagar as minhas despesas.... Number of responses: 319 responses.

Forms response chart. Question title: Que despesas tenho dificuldade em cobrir nesta altura?. Number of responses: 319 responses.


Forms response chart. Question title: Neste momento tens direito a algum apoio, ou prestação social, por parte do estado, decorrente da situação actual de surto de Covid 19?. Number of responses: 319 responses.





Apoio extraordinário ao trabalho independente

Forms response chart. Question title: Caso recebas o apoio extraordinário a trabalho independente, o valor efectivo mensal desse apoio é de? (caso não recebas por favor não respondas) . Number of responses: 76 responses.


Forms response chart. Question title: Caso tenhas tido perda parcial ou total de rendimentos mas não tenhas direito ao apoio extraordinário, isso deve-se a:  (se não for o teu por caso favor não respondas ). Number of responses: 66 responses.


Forms response chart. Question title: Caso estejas a receber apoio do estado/prestação social, consideras que te  permite viver de forma digna? (caso não recebas por favor não respondas) . Number of responses: 81 responses.



Apoios de Emergência

Forms response chart. Question title: Concorreste a algum dos apoios de emergência (Dgartes, Gulbenkian, Câmaras municipais ou outro)?. Number of responses: 319 responses.
Forms response chart. Question title: Recebeste algum dos apoios de emergência? (se não te candidataste por favor não respondas ). Number of responses: 170 responses.

Associativismo


Forms response chart. Question title: Pertences a alguma associação, cooperativa ou grupo informal com actividade na área das artes visuais ou das artes em geral?. Number of responses: 319 responses.


Forms response chart. Question title: Consideras que a associação / grupo / colectivo / cooperativa a que pertences, pode ser, ou já está a ser, importante para os seus membros fazerem frente a situação económica e/ou social actual?    (se não se aplica a ti, por favor não respondas ). Number of responses: 142 responses.

Forms response chart. Question title: Face à situação actual, tens vontade de pensar, com os teus pares das artes visuais, em criar estruturas (grupos, associações, redes, cooperativas etc.) que permitam um maior poder de reivindicação, apoio mútuo e de auto organização?. Number of responses: 319 responses.





Comentários, notas ou reflexões (selecção)


Não estando neste periodo em situação de maior dificuldade da que a que estava no pré covid isso deve-se sobretudo a ajuda de um familiar e do apoio extraordinário para trabalhadores independentes e que se compõe sobretudo a partir dos rendimentos de montagens de exposições. Os artistas visuais, e aqui referir-me-ei exclusivamente a este contexto, não podem depender da venda de obras de arte quando o foco não são as vendas...e aí começa o problema que me põe numa situação crônica de dificuldade, apesar de não me poder queixar de oportunidades de exposição, no Pré, durante e certamente pós covid. Trocando por miúdos, normalmente é-se apoiado com produção, alojamento, etc, mas não com renumeração que permita fazer face a despesas normais da vida de cada um ou ter meios para produzir obra a partir desses ganhos. Frequentemente é dinheiro do trabalho em outras atividades que sustenta a pratica artística. Retirando-o naturalmente das despesas vitais do dia a dia. Costumo sentir um misto de boa disposição com angustia sempre que surge a oportunidade de expor pois sifnifica poupanças a zero no fim e a inevitavel ajuda de familiares. Assim, a critica maior é para a falta de regulamentação na renumeração devida aos artistas visuais no contexto das suas exposições além dos apoios que se asseguram mas mais relacionados com produção e que sao geralmente insuficientes e complementados pelo pouco que tenha disponivel...No entanto, melhor do que isso apenas seria uma forma de renumeração mensal e nesse caso talvez nem fosse necessário equacionar a supradita renumeração em contexto de exposição alem de apoios à produção.


Quando o trabalho independente nesta área não é agregado a um colectivo ou associação, o enquadramento é dúbio, e difícil de apresentar!
Penso que se deverá criar uma forma de os recibos verdes serem eliminados. Tem de partir de cada um de nós não aceitar certas condições de trabalho, principalmente a partir de agora . Esta negação às condições miseráveis será mais fácil se todos nos negarmos a aceitar estas condições.
A minha situação atual mais confortável é excecional por estar com bolsa da FCT em doutoramento. Quando a bolsa acabar tudo mudará pois os rendimentos como artista visual não me permitem viver economicamente do meu trabalho.
Acho que é urgente fazer um levantamento dos artistas existentes e das formas de subsistência que têm, formas de criar espaços de exposição acessíveis a todos e divulgação dos mesmos.
O nosso setor é feito por gente apaixonada que gosta do que faz ao ponto de se deixar negligenciar pelo "sistema". Temos de acordar e lutar pelos nossos direitos, a situação que este setor está a viver é inaceitável
Os artistas visuais precisam de ser ouvidos em voz própria para melhor entendimento daquilo que fazemos e melhoria de um plano nacional e regional adequado aos desenvolvimentos que temo feito que esta6o nos antípodas da realidade cultural do país.
A união faz a força, chegou a hora de artistas das diversas áreas se unirem pela cultura e pelos direitos que há muito já deveriam ter. É o tempo de pôr de parte egos e divergências e olhar aquilo que nos une, o direito ao trabalho, justiça e igualdade social.
Sinto que se os grupos, associações, redes, cooperativas, etc, já existentes se poderiam agregar e entre ajudar (partilha de informação ou outra), pois talvez não seja por criar mais outra associação que a efectividade exista. Muitos clusters. Também que as artes visuais e artes performativas (ou outras) se unissem de alguma forma nessa entreajuda. Uma colaboração em organismo inter e múltiplo. Agora a complexidade é grande, mas talvez seja possível começar a imaginar...
A nossa organização e visibilidade social seria fundamental neste momento.
As Artes Visuais precisam de se organizar e reclamar maior representatividade. Somos das poucas áreas sem um sindicato ou estrutura que nos agregue e nos defenda perante o ministério. É urgente criarmos algo que nos represente.
Mais cooperativas e quem sabe um dia um sindicato!
O meu rendimento médio mensal até ao inicio da pandemia, já era inferior a 200€ mensais, agora está muito pior. Não creio, por isso mesmo, vir a ter qualquer apoio da Segurança Social. A minha área de actividade é na educação através do cinema para crianças e jovens, e de quando em vez, cineasta.
Inquéritos como este são de imensa importância numa situação tão insólita como a que vivemos. Poderão ser determinantes para os profissionais de artes visuais e, a meu ver, sobretudo para artistas freelance/colaboradores de serviço educativo sem contrato ou a recibos verdes. Numa visão geral - e ideal - é essecial apoiar a área da cultura e não deixar que estes trabalhadores fiquem sem rede. Felizmente e graças a diversas oportunidades e gestos atenciosos, neste momento não tenho grandes prejuízos financeiros. Ainda assim, é espectável que repercussões negativas aconteçam no futuro e, sem dúvida, já desfez muita programação e obrigou a alterar/repensar planos. Desejo que este inquérito chegue ao máximo de pessoas que se revejam nestas condições, para assim haver uma boa análise e uma melhor acção! Obrigada pela dedicação e votos de bom trabalho!!
A Cultura é vista como algo que não é trabalho, que não produz nada de palpável ou contabilizável e por isso não terá direito a uma remuneração digna. É a falta de valorização e de consciência da importância da Arte e da Cultura que fazem com que estas sejam sempre secundarizadas, no contexto do actual sistema capitalista neoliberal, que oblitera quem não produz lucro. Estado e privados têm a obrigação moral e prática de manter uma Cultura activa e viva, com dignidade, numa rede de funcionamento diversa e que chega a todos, para que deixe de haver artistas a passar fome e em condições precárias de vida.
Apenas uma opinião: Actores das artes visuais: os artistas, aqueles a quem os artistas dão trabalham e adquirem materiais para produção das obras, o ministerio da cultura, as grandes contratadoras e compradoras (gulbenkian,serralves, etc), os grandes coleccionadores, os pequenos coleecionadores, as galerias de dimensão (2 ou 3), galerias de pequena dimensão, os espaços de divulgação que fazem exposições regulares mas que geralmente não pagam nada aos artistas, e mais alguém que me possa estar a esquecer. Ao se fazer um possível cenário, não só sobre o futuro do sector mas das acções e reinvidicações possíveis, há que ter em conta as variaveis de interesses/objectivos de cada uma destas entidades, pois os interesses não são os mesmos para todos.





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